sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Notas Sobre Um Paradigma Da Informação

Nos dias atuais as aparências apresentam uma situação singular, não mais como o "fim de um sonho", comum aos anos setenta, com o fim do toda contracultura “sessentista”, mas podemos dizer, com um olhar superficial da sociedade, que já vivemos o início de um pesadelo. Falo daquele pensamento revolucionário de mudança social, política e econômica, por certo um desejo de transformação generalizada e em contexto mundial.
É comum vermos as pessoas que ainda cultivam esses ideais reclamarem por sentirem-se sozinhas em meio à maioria esmagadora que está entregue aos encantos da vida capitalista.
Uma pergunta sobre este tema foi parte integrante do texto em forma de entrevista elaborado (tanto as perguntas quanto as respostas) pelo filósofo francês Michel Foucault e por C. Delacampagne representante do jornal “Le Monde”, que encomendou o texto. O título foi “Le Philosophe masqué” (O filosofo mascarado), publicado em 06 de abril de 1980.
Foucault que solicitou não ser identificado na entrevista, por isso o título, respondeu a seguinte pergunta: “Você acredita que nossa época está realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e dos grandes escritores?”
Vê-se que o problema já era relevante no início da década de 80 e sobre ele o pensador francês respondeu, de forma contraditória, que não acreditava no “refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico”. Exaltando a capacidade humana de manifestar a curiosidade, Foucault parece esquecer, mas penso que de forma intencional, com o intuito de destacar outro problema que tratarei em seguida, que nossa sociedade está absorvida pelo senso comum e pelo que Paulo Freire chama de “curiosidade ingênua”.
Não vou entrar no mérito do que é curiosidade ingênua, mas torna-se claro que ela é o que caracteriza o senso comum e dela resulta certo saber, mas sim, quero discutir o que é definido por Freire como “curiosidade epistemológica”, que é exatamente a curiosidade que Foucault destaca em seu texto. Esta caracteriza-se por ser mais metódica e mais rigorosa que a primeira, portanto uma curiosidade crítica por essência.
Ao exaltar a existência do pensamento crítico em nossa sociedade, algo que acredito que nos trinta anos passados diminuiu significativamente, Foucault procura nos alertar de outro mal, a minimização dos meios de disseminar-se informação. Segundo ele o “problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.”
Partindo deste principio necessário ao desenvolvimento da consciência humana, vemos já há algum tempo que a internet, as possibilidades abertas pela TI, podem tornar esses meios mais democráticos. No entanto, conforme John A. Mathews mostra em seu famoso artigo “New production concepts” (Novos conceitos de produção) de 1999, o qual discursa sobre a eminente mudança de paradigma de produção, essas novas ferramentas podem ser usadas para disseminar informação com o intuito de obter-se uma produção sustentável e flexível que deve ir além da organização do trabalho, passando pela mudança de aspectos técnicos, econômicos, políticos e sociais, ou simplesmente para automatização contínua de sistemas produtivos sem mudança na essência da organização do trabalho. Analogamente a esse conceito, vemos um dilema, utilizar a TI para verdadeiramente democratizar a informação, como pretende Foucault, ou para meramente intensificar a de caráter ingênuo, de marketing e visando a perpetuação do capitalismo exacerbado.
Para Foucault deve-se evitar “chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso” e a internet, diferentemente da maioria dos meios clássicos de mídia moderna, atente a este quesito. Portanto acho legítima a utilização da mesma, seja para pequenas ações, como o chamado “tuitaço”, por entender que é hora de a utilizarmos para o fim coerente com nosso sonho citado no começo do texto.
Gostaria de destacar mais uma frase do filósofo mascarado.

“Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exíguos, quase monopolistas, insuficientes.” (Michel Foucault)

Fica agora a pergunta a ser respondida: Será que ainda sofremos desta escassez ou não sabemos utilizar os canais de informação disponíveis de forma coerente?


 Referências:

FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.

MATHEWS, John A. New Production Concepts. Prometheus, Vol. 7. No. 1, Junho de 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2010.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

3 Álbuns - Álbum 3

OS CONSAGRADOS

O “Show Opinião”, este é o terceiro álbum escolhido. Fechando a lista, este título representa os Consagrados da música brasileira. Gostaria de destacar algo de especial nos três artistas que juntos contribuíram para esta obra. Nara Leão, João do Vale e Zé Keti, mesmo sendo reconhecido por sua excelência artística não são muito conhecidos pelo grande público, pelo menos para as novas gerações e no abrangente de suas obras.
Venho aqui falar em especial do “Show Opinião”, que na época de seu lançamento tornou-se muito popular, isso em especial devido a ele ter surgido a partir de um espetáculo musical. Dirigido por Augusto Boal, produzido pelo Teatro de Arena e por integrantes do Centro Popular de Cultura da UNE - instituição que, a esta altura, havia sido colocada na ilegalidade pelo regime militar recentemente instaurado no Brasil.
Os três atores-cantores intercalavam canções a narrações referentes à problemática social do país. O texto era assinado por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes.
O show-manifesto estreou em 11 de dezembro de 1964, alguns meses depois do golpe militar, no teatro do Shopping Center Copacabana, sede do Teatro de Arena no Rio de Janeiro.
O show tornou-se uma referência na chamada "música de protesto" e é considerado um dos mais importantes da história da música popular brasileira.
O álbum de 1965 nada mais é que a gravação de um dos espetáculos apresentados.

 
3 Álbuns - Álbum 1 :

3 Álbuns - Álbum 2 :

3 Álbuns - Álbum 2

OS MALDITOS

Para caracterizar os Malditos da música brasileira escolhi o álbum “Alucinação” de 1976. É uma obra de um dos artistas mais subestimados de nossa arte musical, Belchior.
Muitas pessoas que adoram música “Como nossos pais”, interpretada lindamente pela grande Elis Regina nem imaginam que a composição é de Belchior. Esta música, bem como “Velha roupa colorida”, também interpretada pela Elis, fazem parte deste álbum do autor.
A obra e um verdadeiro manifesto político e social em forma de arte. Todas as canções tem letras extremamente bem escritas, e feitas para apresentar uma ideologia vinda do artista.
Com sua mistura sonora, temos um som com um toque de “brega”, típico de Belchior e a psicodelia que se apresenta logo na capa, contra-capa e encarte do disco.
Além das músicas supracitadas, podemos destacar também “Apenas um rapaz latino-americano”, “Sujeito de Sorte” e a faixa que dá o título do álbum, “Alucinação”.
Esta é uma obra obrigatória aos amantes da música popular brasileira e apreciadores de uma boa letra com cunho de protesto.


3 Álbuns - Álbum 1 :

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Anarquistas Também Amam (A Filosofia do Amor)

Boa noite amor,

Ontem quando me despedi de você e voltei para casa, fiquei pensando em nossa conversa, em nosso acordo, o qual, até certo ponto, pareceu-me forçado. Um acordo em que apresenta-se uma imposição não se torna justo, ele é sim um exercício de autoritarismo, e infelizmente neste caso vindo de minha parte.

Como anarquista, nem mesmo nas relações sociais, ou no caso amorosa, posso admitir este tipo de atitude, se aceitá-la não estarei sendo ético nem comigo, nem contigo.
Fiquei um bom tempo refletindo sobre o assunto sem conseguir chegar a uma conclusão que satisfizesse meu desejo de ter um pouco de paz de espírito e de ao mesmo tempo ser fiel a meus ideais.

A noite peguei o livro que estou lendo e logo na primeira página a resposta veio a tona, não para minha angústia, mas dizendo o por que dessa situação.

Pode parecer estranho mas as vezes pensamos que o estudo da filosofia só se apresenta na prática, ou como Práxis, no âmbito de filosofias políticas e sociais, mas ela é tão ou mais importante para nossas relações sociais, nosso dia-a-dia, e baseando-se nela pude entender melhor esse envolvimento, em especial no dilema que hoje tenho contigo.

 

Lembrando que nosso acordo diz respeito a limitação de nossa liberdade em favor de uma aparente relação mais tranquila, seja para mim seja para você, ao ler o trecho no livro onde o filosofo, dramaturgo e romancista francês Jean-Paul Sartre, velho conhecido nosso, expõem suas constatações sobre a liberdade e ou outrem, tive a visão da discussão que se impôs entre nós e a prova da inevitabilidade de tal tensão.

 

Essa relação de tensão existencial entre o eu e outrem, no caso entre nós, segundo Sartre é até onde pode ir a liberdade, visto que “o único limite com o qual pode se deparar a liberdade vem da relação com outrem”. Como pode ver, isso é algo inevitável em qualquer relacionamento, portanto não é exclusividade nossa.

Mas há, como podemos sentir em nosso coração, o lado podre desse estudo. Ao avançar no assunto Sartre por fim chega a triste conclusão: “Como só há escolha fenomênica e liberdade absoluta, não pode haver amor absoluto.”

 

Essa constatação apresentou-se para mim como o fim de um sonho, no entanto, um que já estava programado para expirar. Mas ainda há uma saída, e o filosofo, com uma aparente, mas só aparente, contradição, mostrou-me a resposta para minha angústia.

A resposta se evidencia quando nossa livre existência é retomada e desejada por uma liberdade absoluta que ela ao mesmo tempo condiciona e que nós mesmos desejamos livremente. Ou seja, “o fundo da alegria do amor, quando ela existe, é sentirmo-nos justificados por existir.”

 

Para nossa relação seria aceitar um acordo ou uma limitação da liberdade, mas não para satisfazer o outro, e sim para satisfazer nós mesmos.

 

Fica a pergunta: Isso é possível para nós?

 

Com carinho.

 

 

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Culpa é de Quem? (Sobre as Tragédias)

Quando da tragédia que assolou Lisboa em 1755, os pensadores Voltaire e Rousseau travaram uma discussão em torno do que gosto de definir como “de quem é a culpa?”, ou seja, para Voltaire segundo seu poema sobre o desastre de Lisboa, mesmo que não explicitamente, a culpa seria de Deus, pois Ele sendo um ser benevolente e onipotente, não deveria permitir tal acontecimento a humanidade. Já para Rousseau a culpa não é de Deus, visto que são os homens que se amontoam em um espaço reduzido propensos a esse tipo de fato.

Uma discussão dessas me parece sem fim, mas queria atentar para outra observação importante de Voltaire em seu texto. Ele parece não aceitar que Deus é ao mesmo tempo benevolente e onipotente, pois se Ele permite tal flagelo, não é benevolente, ou se realmente o for, então não será onipotente, pois não é capaz de impedí-lo.
Venho, com esta observação, não defender o ateísmo, mesmo como ateu que sou, mas para demonstrar minha revolta com essa estagnação do pensamento. Por exemplo: ao ver o noticiário, onde apresentam um mundo de tragédias sem fim, ou, um sem fim de tragédias no mundo, em especial nos últimos dias com as enchentes no Brasil, por várias vezes assisto, diferentes pessoas, vítimas, se colocando como meros fantoches, ao declarem, quando do recebimento de uma ajuda – seja por parte do governo, de filantropos, de voluntários, de vizinhos – muito satisfeitos, agradecendo a Deus pela ajuda bem vinda, mas mesmo que sem esquecerem de tudo que os aconteceu, aparentemente aceitam tal situação como sendo algo da natureza, do desejo divino, sem a menor contestação. Essa aceitação das regras divinas nos remetem a uma mesma aceitação do jogo dos homens, dos termos definidos pela elite dominante, pelo governo hipócrita, pelos discursos alienantes – políticos ou teológicos.

A mesma pergunta que podemos fazer a um Deus que segundo consta é benevolente e onipotente, mas aparece-nos como indiferente esses tristes acontecimentos: “que Deus é esse?”; podemos fazer a nossos representantes, as “vozes do povo”, que não tomam providências para evitar esse infortúnios: “que governo é esse?”. Como já enfatizei muitas vezes em textos anteriores, para mim essas providências devem partir da educação, pois se os homens que construíram casas de 6 andares a beira mar em Lisboa no século XVIII tivessem uma educação coerente (sem entrar desta vez no mérito de o que é educação coerente), eles com certeza, não teriam as feito, pois estariam cientes das possibilidades e dos danos causados a natureza e em contra-partida ao próprio homem. É claro que possivelmente, para o homem do século XVIII, tais conhecimentos ainda precisavam ser desenvolvidos, mas para a realidade presente vejo possível. Entendo que só a ganancia desmedida, a ocupação sem nenhuma preocupação – com o natural, com o ambiente e com o habitat – é tão responsável pelas tragédia quanto o próprio Deus.

Portanto, a margem de Deus, somos seres capazes e devemos lutar por nossa integridade – seja física, seja mental – e essa luta deve partir de uma cobrança de nos mesmo e de nossos representantes, começando pela mudança do pensamos comum para pensamento crítico, o que resultará na evidenciação de necessárias ações civis a serem tomadas para evitar novos erros que se tornaram corriqueiros e até certo ponto são tolerádos em nossa sociedade.


sábado, 22 de janeiro de 2011

O que se entende por rock brasileiro?

Após várias discussões filosóficas, alucinógenas e espirituais – espirituais, devido a química, é claro! – acho que enfim compreendemos a ideia do que é o verdadeiro rock brasileiro.
A ideia inicial de renegar o que tem-se como indiscutívelmente rock nacional, tal como o sonho vindo de ”Os Mutantes” ou mesmo com o que é hoje é tido como “a década do rock” no Brasil, o que gostamos de chamar de “roquizinho dos anos 80”, pode ser difícil de aceitar, mas pelo nosso entendimento isso não é rock brasileiro.
Consideramos como o que há de melhor em termos de rock brasileiro “Os Novos Baianos”. Você pode me perguntar porque?
A resposta, o som é autêntico, é brasileiro, é de atitude, é ideologia, cultural, original, é expressão artística e também é rock. Ouvimos suas músicas e não nos remete a algum som ou uma estética pronta, estáticas em geral vinda de fora, importadas. Encontramos nesse som influências do rock e do samba, até mesmo baião, ultrapassando a invisível barreira cultural que na verdade não deveria existir, restringindo as posibilidades de criação para com  junção dessas vertentes musicais. Vemos sim a fusão delas para algo completo, singular. Ao apreciarmos este tipo de som temos certeza de que há identidade brasileira, como ocorreu com a “bossa nova” anos antes, onde o mundo nos promoveu a jazz, extrapolando nossas fronteiras. Assim é “Os Novos Baianos”, rock e samba igual a rock brasileiro.


PS: Para que compreendeu, ou quer saber mais, veja o vídeo indiaco abaixo. Compare com os mesmos critérios apresentados a banda Planet Hemp, pois ela também representa uma vanguarda musical genuinamente brasileira, bem como tente usar essa comparação para as bandas brasileiras que você gosta, então comente nos mostrando outros nomes.




Giorgia de Oliveira Moreira e Vinicius Nesi.
Joinville, janeiro de 2011.
Ao som de “Os Novos Baianos”, com alguns entorpecentes.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Ensinar exige liberdade e autoridade"

Texto retirado no livro "Pedagogia da Autonomia - Saberes Necessário a Prática Educativa" de Paulo Freire. Na parte 4 do capítulo 3 o autor nos apresenta a relação de tensão entre Autoridade e Liberdade. Relação que vejo necessária, e que deve estar presente, na medida certa, em grande parte das relações sociais do ser humano independente da filosofia política escolhida.


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Noutro momento deste texto me referi ao fato de não termos ainda resolvido o problema da tensão entre a autoridade e a liberdade. Inclinados a superar a tradição autoritária, tão presente entre nós resvalamos para formas licenciosas de comportamento e descobrimos autoritarismo onde só houve o exercício legítimo da autoridade.
Recentemente, jovem professor universitário, de opção democrática, comentava comigo o que lhe parecia ter sido um desvio seu no uso de sua autoridade. Disse, constrangido, ter se oposto a que aluno de outra classe continuasse na porta entreaberta de sua sala, a manter uma conversa gesticulada com uma das alunas. Ele tivera inclusive que parar sua fala em face do descompasso que a situação provocava. Para ele, sua decisão, com que devolvera ao espaço pedagógico o necessário clima para continuar sua atividade específica e com a qual restaurara o direito dos estudantes e o seu de prosseguir a prática docente, fora autoritária. Na verdade, não. Licencioso teria sido se tivesse permitido que a indisciplina de uma liberdade mal centrada desequilibrasse o contexto pedagógico, prejudicando assim o seu funcionamento.
Num dos inúmeros debates de que venho participando, e em que discutia precisamente a questão dos limites sem os quais a liberdade se perverte em licença e a autoridade em autoritarismo, ouvi de um dos participantes que, ao falar dos limites à liberdade eu estava repetindo a cantinela que caracterizava o discurso de professor seu, reconhecidamente reacionário, durante o regime militar. Pra o meu interlocutor, a liberdade estava acima de qualquer limite. Para mim, não exatamente porque aposto nela, porque sei que sem ela a existência só tem valor e sentido na luta em favor dela. A liberdade sem limite é tão negada quanto a liberdade asfixiada ou castrada.
O grande problema que se coloca ao educador ou à educadora de opção democrática é com trabalhar no sentido de fazer possível que a necessidade do limite seja assumida eticamente pela liberdade. Quanto mais criticamente a liberdade assuma o limite necessário tanto mais autoridade tem ela, eticamente falando, para continuar lutando em seu nome.
Gostaria uma vez mais de deixar bem expresso o quanto aposto na liberdade, o quanto me parece fundamental que ele se exercite assumindo decisões. Foi isso, pelo menos, o que marcou a minha experiência de filho, de irmão, de aluno, de professor, de marido, de pai e cidadão.
A liberdade amadurece no confronto com outras liberdades, na defesa de seus direitos em face da autoridade dos pais, do professor, do estado. É claro que, nem sempre, a liberdade do adolescente faz a melhor decisão com relação a seu amanhã. É indispensável que os pais tomem parte das discussões com os filhos em torno desse amanhã. Não podem nem devem omitir-se mas precisam saber e assumir, que o futuro de seus filhos é de seus filhos e não seu. É preferível, para min, reforçar o direito que tem a liberdade de decidir, mesmo correndo o risco de não acertar, a seguir a decisão dos pais. É decidindo que se aprende a decidir. Não posso aprender a ser eu mesmo se não decido nunca, porque há sempre a sabedoria e a sensatez de meu pai e minha mãe a decidir por mim. Não valem argumentos imediatista como: "Já imaginou o risco, por exemplo, que você corre, de perder tempo e oportunidade, insistindo nessa idéia maluca???" A idéia do filho, naturalmente. O que há de pragmático em nossa existência não pode sobrepor-se ao imperativo ético de que não podemos fugir. O filho tem, no mínimo, o direito de provar a maluquice de sua idéia. Por outro lado, faz parte do aprendizado da decisão a assunção das conseqüências do ato de decidir. Não há decisão a que não se sigam efeitos esperados, pouco esperados ou inesperados. Por isso é que a decisão é um processo responsável. Uma das tarefas pedagógicas dos pais é deixar óbvio aos filhos que sua participação no processo de tomada de decisão deles não é uma intromissão mas um dever, até, desde que não pretendam assumir a missão de decidir por eles. A participação dos pais se deve dar sobretudo na análise, com os filhos, das conseqüências possíveis da decisão a ser tomada.
A posição da mãe ou do pai é a de quem, sem nenhum prejuízo ou rebaixamento de sua autoridade, humildemente, aceita o papel de enorme importância de assessor ou assessora do filho ou da filha. Assessor que, embora batendo-se pelo acerto de sua visão das coisas, jamais tente impor sua vontade ou se abespinha porque seu ponto de vista não foi aceito.
O que é preciso, fundamentalmente mesmo, é que o filho assuma eticamente, responsavelmente, sua decisão, fundante de sua autonomia. Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas. Por que, por exemplo, não desafiar o filho, ainda criança, no sentido de participar da escolha da melhor hora para fazer seus deveres escolares? Porque o melhor tempo para esta tarefa é sempre o dos pais? Por que perder a oportunidade de ir sublinhando aos filhos o dever e o direito que eles tem, como gente, de ir forjando sua própria autonomia? Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos 25 anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiência respeitosas da liberdade.
Uma coisa me parece muito clara hoje: jamais tive medo de apostar na liberdade, na seriedade, na amorosidade, na solidariedade, na luta em favor das quais aprendi o valor e a importância da raiva. Jamais receei ser criticado por minha mulher, por minhas filhas, por meus filhos, assim como pelos alunos e alunas com quem tenho trabalhado ao longo dos anos, porque tivesse apostado demasiado na liberdade, na esperança, na palavra do outro, na sua vontade de erguer-se ou reerguer-se, por ter sido mais ingênuo do que crítico. O que temi, nos diferentes momentos de minha vida, foi dar margem, por gestos ou palavrões, a ser considerado um oportunista, um realista, um homem de pé no chão, ou um desses equilibristas que se acham sempre em cima do muro à espera de saber qual a onda que se fará poder.
O que sempre deliberadamente recusei, em nome do próprio respeito à liberdade, foi sua distorção em licenciosidade. O que sempre procurei foi viver em plenitude a relação tensa, contraditória e não mecânica, entre autoridade e liberdade, no sentido de assegurar o respeito entre ambas, cuja ruptura provoca a hipertrofia de uma ou de outra.
É interessante observar como, de modo geral, os autoritários consideram, amiúde, o respeito indispensável à liberdade como expressão de incorrigível espontaneísmo e os licenciosos descobrem autoritarismo em toda manifestação legítima da autoridade. A posição mais difícil, indiscutivelmente correta, é a democrata, coerente com seu sonho solidário e igualitário, para quem não é possível autoridade sem liberdade e esta sem aquela.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2010.

domingo, 2 de janeiro de 2011

3 Álbuns - Álbum 1

Nos últimos dias fiz um resgate dos malditos, e de outros nem tão malditos assim, da música brasileira. Na verdade, vou confessar, alguns consagrados também. Um resgate de minha memória musical. Fui atrás de discos, bandas, interpretes... sons que conhecia e sons que ainda eram um tanto quando desconhecidos para mim.
Esqueci por algum tempo do “bom e velho rock’n’roll”, para usar uma frase clássica. E esqueci também de alguns músicos brasileiros muito caros para mim, tais como, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Novos Baianos, Jorge Ben, Caymmi, Cartola e também Raul Seixas.

Agora gostaria de compartilhar com os possíveis leitores algumas maravilhas musicas ou até mesmo, pode-se dizer,  importantes manifestos contra-culturais, verdadeiros documentos históricos.
Serão 3 posts, cada um com um disco selecionado, tentando abranger a diversidade de música e artistas envolvidos utilizando de 3 classificações distintas.

Segue o primeiro:

OS MARGINALIZADOS

Escolhi o disco Revolver – não o bom, mas normalmente superestimado clássico álbum pop de 1966 – mas ao contrário, um álbum nacional, de 1975 do compositor Walter Franco. Este caracteriza os marginalizados da música brasileira. Isso mesmo, marginalizados, nem malditos são. A classificação se dá para certos discos que ficam a margem de qualquer adjetivo vindos da maior parte dos possíveis apreciadores. A margem seja por desconhecimento ou por descaso. Este álbum em especial, ao menos já teve algum reconhecimento, quando avaliado pela revista Rolling Stones (que fique anotado neste depoimento que não gosto desta revista), o colocando em quinquagésimo lugar na lista Top 100 Álbuns de Música Brasileira.

No álbum Revolver Walter Franco continua sua “Mixturação”! Esse é o título da primeira faixa de seu trabalho de estréia e me parece uma ótima definição para seu estilo, uma verdadeira mistura de sons. Essa atitude sonora o colocou sempre na vanguarda artística em seu tempo, mesmo não participando de nenhum movimento cultural musical tais como Bossa Nova ou mesmo o Tropicalismo.
Sobre do álbum: Seu título Revolver (não Revólver), pois segundo Walter Franco, “no princípio era o verbo”. Utiliza-se de muitas guitarras, o aproximando do rock, bem como elaborados efeitos de estúdio, mas mesmo assim fica claro que o disco não se prende a nenhum estilo de arranjo, mas está sempre buscando uma sonoridade diferente.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Entre os Muros da Escola

Apresento um texto retirado do livro “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire, publicado pela primeira vez em 1996, um ano antes de sua morte. O educador e filósofo brasileiro tinha então 75 anos e discursava sobre a necessidade do professor e do aluno assumirem-se como seres sociais e históricos. Assumir-se como sujeito porque capaz de reconhecer-se como objeto. Neste breve trecho autobiográfico ele tentava demonstrar os méritos desta prática.

“Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por si mesmo. Nunca me esqueço, na história já longa de minha memória, de um desses gestos de professor que tive na adolescência remota. Gesto cuja significância mais profunda talvez tenha passado despercebida por ele, o professor, e que teve importante influência sobre mim. Estava sendo, então, um adolescente inseguro, vendo-me como um corpo anguloso e feio, percebendo-me menos capaz do que os outros, fortemente incerto de minhas possibilidades. Era muito mais mal-humorado que apaziguado com a vida. Facilmente me eriçava. Qualquer consideração feita por um colega rico da classe já me parecia o chamamento à atenção de minhas fragilidades, de minha insegurança.
O professor trouxera de casa os nossos trabalhos escolares e, chamando-nos um a um, devolvia-os com o seu ajuizamento. Em certo momento me chama e, olhando ou re-olhando o meu texto, sem dizer palavra, balança a cabeça numa demonstração de respeito e de consideração. O gesto do professor valeu mais do que a própria nota dez que atribuiu à minha redação. O gesto do professor me trazia uma confiança ainda obviamente desconfiada de que era possível trabalhar e produzir. De que era possível confiar em mim mas que seria tão errado confiar além dos limites quanto errado estava sendo não confiar. A melhor prova da importância daquele gesto é que dele falo como se tivesse sido testemunhado hoje. E faz, na verdade, muito tempo que ele ocorreu...”

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2010.


 Termino com a indicação do filme "Entre os muros da escola" (foto) 2008 Entre Les Murs de Laurent Cantet. Vencedor da Palma de Ouro de melhor filme é uma verdadeira obra-prima que tem sua temática totalmente voltada para a relação que Paulo Freire expos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Teorias da Moral (Rousseau & Kant VS Nietzsche & Sartre) – Parte 1

Utilizando como inspiração o texto do blog sobre Pedagogia Libertária, quero iniciar uma discussão sobre as filosofias que baseiam ou podem basear as filosofias políticas que influenciam as diversas correntes pedagógicas.
Ao invés de focar em correntes filosóficas específicas, preferi fazer críticas dirigidas aos filósofos. Mais uma vez neste blog proponho o embate, mas desta vez, analogamente aos ringues de luta-livre, feitos entre duas duplas: Rousseau e Kant contra Nietzsche e Sartre.
Por sua vez não estarei tratando as idéias de cada pensador em separado, mas mesmo sabendo da diferença entre elas, como se fossem apenas dois pensamentos concorrentes.

Escolhi os filósofos citados acima, pois quero tratar de um assunto que diz respeito direto a formação de todos os serem humanos, ou seja, diz respeito a educação. O tema é a moral e estes nomes expuseram idéias muito relevantes sobre o objeto de estudo, seja de forma indireta ou mais direta, como Nietzsche. Quero acrescentar que a escolha é também mais por uma questão pessoal, que gira em torno de quase uma admiração e “ódio” para com estes filósofos. O que penso ao dizer isso é que, sabe-se que existe mais uma serie de pensadores que poderiam ser visados, mas por razões que não precisam ser discutidas aqui, os estudados serão estes quatro, e principalmente, as opiniões expostas apesar de serem parciais e pessoais também são baseadas nos escritos destes homens.

Começarei expondo o que considero ser a corrente dos demagogos, a corrente defendida pela elite dominante e pela igreja em geral. A corrente que deseja e que exerce a ideologia do erro, a ideologia conforme definido por Marx. A mesma corrente que é utilizada maciçamente na educação na maioria de nossas escolas.  Ela ainda é muito aceita, e afirma que devemos ter uma crença para nortear nossas ações como seres sociais. Ela não admite que possamos viver sem algum tipo de essência, pois, como seres sociais, somos corrompidos pela sociedade e a "tentação" de agirmos sob atitudes sociais negativas visando apenas o nosso interesse pessoal seria algo inevitável. O suíço Rousseau é um dos que seguia esta linha de pensamento, somente admitindo que pessoas que não possuem uma crença religiosa poderiam viver na sociedade se agissem de acordo com uma certa “religião civil”, que a grosso modo seria aceitar que as leis criadas pelos homens, e que normalmente são a transmutação das leis divinas para a sociedade civil, devem ser tomadas como essências para nossas ações. Quem não aceitar nem a “religião civil”, nem as “religiões dogmáticas” deveria ser banido da sociedade.

Jean-Jacques Rousseau
 
Já o russo Kant desenvolveu um teoria de evolução moral humana, e com certeza inspirou o psicólogo Piaget, teórico que é utilizado em grande escala como referencia a pedagogia moderna, que desenvolveu uma teoria baseada em Kant, mas mais específica, sobre a evolução moral humana, colocando que todo ser humano se desenvolve moralmente na sociedade de acordo com uma imposição de regras, imposição de moral, e isso acontece desde a infância até a vida adulta. As etapas do desenvolvimento moral, conforme Piaget aborda, são as seguintes: anomia, heteronomia, socionomia e autonomia. Quero apenas ressaltar a primeira e a ultima etapa, mas passando pelas outras duas. A anomia acontece normalmente na criança pequena, ainda no egocentrismo, onde não existem regras e normas. Ela deve ser direcionada pelos adultos e por suas necessidades básicas. Rapidamente, a segunda e a terceira etapa são as que o ser humano é levado a agir de acordo com regras, seja por imposição de outros, de adultos por exemplo, seja por imposição do grupo social a que pertence. Por ultimo vem a autonomia, que para Piaget, é a evolução máxima do ser humano. Ele, o ser humano, toma decisões a partir da aceitação de que há regras de conduta moral acima de qualquer egocentrismo e devem ser seguidas praticamente sem questionamento. Aceitando isso, as ações devem seguir visando uma relação social positiva. Essas regras de conduta moral citadas são as mesmas que Rousseau coloca como sendo as da “religião dogmática” ou da “religião civil”.
 
Immanuel Kant

 O que acha dessa corrente que prega uma moral que permeia o seio da sociedade a regulando e a sustentado?

Logo postarei a parte 2 desse texto que falará das idéias de Nietzsche e Sartre sobre o tema.

"Pensar certo" sobre educação

Por fim: O texto revelador. Revelador por que foi por este texto que os anteriores foram postados, visando um prévio esclarecimento sobre este que talvez seja o assunto mais em voga em discussões recentes do PAC.

Com vocês a Pedagogia Libertária, a pedagogia do "pensar certo".

PEDAGOGIA LIBERTÁRIA

A educação e o ensino brasileiro, na sua vertente pedagógica Libertária, de inclinação anarquista, marcou o final do século XIX e XX. As doutrinas anarquistas que fundamentam essa pedagogia foram trazidas pelos trabalhadores europeus que formaram as primeiras organizações do proletário urbano. As idéias anarquistas e comunistas foram divulgadas, assim como os ideais da pedagogia de cunho libertário e os sindicatos criaram escolas de orientação libertária. Mas foram sufocadas com o governo da Primeira República.
As escolas libertárias do inicio do século estão ligadas ao nome de João Penteado e Adelino Pinho, ambos militantes libertários, que tinham como modelo a Escola Moderna de Barcelona, criada pelo espanhol Francisco Ferrer y Guardia.
Papel da escola: preparação do indivíduo para a transformação da sociedade e para a autogestão.
Método de ensino: não existem metodologias a serem aplicadas. O que existe é o grupo. Recusa qualquer tipo de autoridade. Todos decidem o que querem estudar. Cabe ao grupo fazer suas escolhas e se responsabilizar por elas, o grupo se autogestiona. Conteúdo é tudo que pode ser vivenciado. Nega-se toda possibilidade de transmissão de saberes prontos e acabados, que derivam de processos autoritários.
Papel do professor: orientador do grupo. Se o aluno é livre, este também o é frente aos alunos. Ambos chegam a um consenso pelas necessidades do grupo.
Hoje, sua influencia se reduz a núcleos de estudo ou no ensino informal. Seus preceitos libertários influenciaram renomados educadores, como Paulo Freire.
Maurício Tragtemberg, anarquista, propôs uma discussão bem atual sobre a possibilidade de uma escola anti-autoritária e anti-burocrática.
“A autogestão da escola pelos trabalhadores da educação – incluindo os alunos – é a condição de democratização escolar (...) Sem escola democrática não há regime democrático; portanto, a democratização da escola é fundamental e urgente, pois ela forma o homem, o futuro cidadão”.
Em abril deste ano, assisti a uma palestra ministrada por José Pacheco, fundador da Escola da Ponte em Portugal, estudada no âmbito universitário devido sua característica extremamente libertária. Lá, os alunos são ensinados a fazer o seu planejamento de aula, não há conteúdos fixos, não há a presença do diretor, existem professores tutores que mediatizam as atividades dos grupos. Lembro muito bem de Pacheco falando que lá não há leis, pois as leis existem para corrompê-las. O que falta nas pessoas, segundo ele, é compreender, se colocar no lugar do outro. O professor, para trabalhar na Escola da Ponte, deve responder a um único critério: ter amor! Quando sua escola foi fundada, há mais ou menos 30 anos, recebia alunos em reabilitação, jovens penitenciários, meninos de rua, pessoas excluídas da escola, ou melhor, que a escola excluía.
Pacheco disse que o ensino brasileiro já mostrou seu fracasso há mais de 100 anos. E nós continuamos a insistir em uma educação fracassada. Em São Paulo existe a escola Amorim Lima, citada por Pacheco, que tem por inspiração a Escola da Ponte.
Dessa forma a possibilidade dos alunos adorarem ir para a escola é mais provável, pois a escola é deles. Eles aprender a escolher, a ter idéias autônomas, a decidir o que é melhor para ele e para todos. Atitudes conscientes que transformam.

Giorgia


Definindo o Comunismo e o relacionando ao Anarquismo (Marx vs Bakunin)

Segue mais um texto escrito por nossa colaboradora Giorgia.
Achei muito pertinente esse pequeno texto sobre o comunismo, até mesmo por que essa temática, bem como a anarquista estão sendo constantemente referenciadas em nossas discussões.
Com relação ao texto somente gostaria de acrescentar, que, como seguidor dos ideais anarquistas, eu discordo abertamente do comunismo, em especial do Marxismo. Para mim Marx é um ótimo filósofo teórico, mas um grande erro em se tratando de filosofia política.
Os pontos que sou extremamente contra e que acho importamte ressaltar são:
  • Centralismo político contra o federalismo anarquista;
  • Usurpação do estado contra destruição do estado;
  • Ação política (militância) contra a oposição a política dos anarquistas;
  • Ditadura do proletariado contra liberdade de decisões independente de visão de classe. Esse para mim o grande erro, visto que reflete o “pecado” do “One Best Way” instituído indiretamente por Descartes. O comunismo é o fim para uma sociedade e o anarquismo admite sua natureza incompleta e deve estar em constante mudança, evolução.
Agora fiquem com o texto.

Karl Marx vs Mikhail Bakunin

O QUE É COMUNISMO?

Relendo o livrinho “O que é comunismo” de Arnaldo Spindel, que havia lido pela primeira vez quando estava na oitava série, época obscura de profundas crises existências infanto-juvenis, encontrei alguns detalhes acerca da discussão entre comunismo, anarquismo e estado, bem como definições conceituais e de nomenclatura.
Primeiro, o autor especifica o processo do comunismo: a tomada do poder pela classe proletária e a passagem do sistema capitalista ao sistema comunista, via sistema socialista. Aqui encontramos três etapas: a revolução, o socialismo e por fim, o comunismo.  Tanto Marx como Lênin falam em uma fase inferior e de uma fase superior do comunismo. O comunismo só pode existir após o advento do modo de produção socialista.
É interessante a semelhança e ao mesmo tempo a grande diferença entre comunismo e anarquismo. A tarefa revolucionária do proletário não é e nem poderia ser, numa primeira etapa, abolir o estado, como pretendem os anarquistas. É necessário passar pela etapa socialista, com o estado governando e organizando sociedade, do povo, com o povo e para o povo, até chegar ao comunismo. Ou seja, o estado irá acabando até chegar a sua morte. Neste ponto a humanidade estará frente a fase superior do comunismo.
A sociedade socialista não é uma sociedade livre. Lênin diz que enquanto houver estado não haverá liberdade. O estado, na concepção marxista não passa de um instrumento de dominação de uma classe social sobre a outra, o estado nasce devido ao antagonismo entre as classes e, segundo Marx, Engels e Lênin, a humanidade caminha rumo a uma sociedade onde não existiriam classes sociais, o comunismo e evidentemente, numa sociedade sem dominação de uma classe sobre a outra, o estado iria desaparecer.
Em relação ao comunismo no âmbito brasileiro, percebemos que as idéias anarquistas predominaram de maneira clara no meio proletário, principalmente entre 1910 e 1920. Suas formas de organização não admitiam a necessidade do partido político do proletário. A partir de 1917, com a Revolução Russa, ocorre a passagem das idéias anarquistas ao comunismo, gerando certa confusão no meio dos militantes anarquistas brasileiros, que estavam vendo a possibilidade de uma ditadura proletária.
Sabemos que é praticamente impossível tentar compatibilizar a doutrina comunista marxista com a doutrina libertária anarquista. As discussões entre os expoentes máximos destas duas linhas, Marx e Bakunin, jamais haviam conseguido alcançar esta compatibilidade.

Giorgia de Oliveira Moreira
Curitiba, 16 de dezembro de 2010.

SPINDEL, Arnaldo. O que é comunismo? Editora Brasiliense, 14ª Edição; São Paulo:1985. (Coleção Primeiros Passos, Vol. 2)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Anarcopedagogia – Princípios


Há oito anos venho dedicando meus estudos á educação e história, e nesses últimos anos mais precisamente á educação e filosofia. Quando iniciei minhas primeiras reflexões a cerca do processo educacional e social em que a educação e escola estão envolvidos, vi ali uma profunda significação para meus ideias anarquistas que vinha formulando na época. Na verdade, eram pensamentos muito mais ligados a Marx e ao socialismo, no qual dediquei meus estudos mais aprofundados.
Hoje, no último ano do curso de Pedagogia, declaro estar completamente ciente de minha posição em relação a educação, sociedade e filosofia. Delimito meus princípios religiosos: ateísta; filosóficos: existencialista; social: anarquista. Concepção de homem: um ser inacabado. Princípio pedagógico: revolucionário, radical, crítico-reflexivo.
A Pedagogia é a ciência que estuda a educação, e educação diz respeito a existência humana em toda sua duração e em todos seus aspectos. É o processo pelo qual a sociedade forma seus membros, a sua imagem e a seus interesses. Sendo o homem um ser inacabado, a educação é a busca pela sua completude, pois o homem constitui a si mesmo ao longo de sua existência. É na existência que o homem constrói sua essência e o ser alienado, conforme ideologia de Marx, é um ser privado da busca de sua essência. Educar é desalienar. Aqui geramos o primeiro ponto de ramificação teórica: a relação entre filosofia e pedagogia.
É através da educação que formamos mentes e pensamentos, e o grande palco para esse fenômeno é a escola. Escola é local de produção e reprodução de conhecimento científico, artístico, histórico, filosófico, social e cultural. Segundo Saviani, a escola é o local de transmissão e assimilação dos conhecimentos e saberes produzidos pela humanidade ao longo do seu processo histórico.
Sempre defendi a educação como a principal arma de transformação social. É adquirir uma postura crítica frente aos fenômenos sociais, é pensar a sociedade disposta a mudança, igualitária, justa, é tornar o conhecimento democrático, buscando uma autonomia de pensamento ético capaz de gerar um verdadeiro anarquismo filosófico e social. Eis o segundo aspecto a ser ramificado: como a educação compreende a sociedade?

Demerval Saviani
Paulo Freire
Texto:
Giorgia de Oliveira Moreira
@giorgiadoors

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Anarco-cristianismo de Leon Tolstoi

"Os anarquistas estão certos [...], na negação da ordem existente, [...]. Erram somente em pensar que a anarquia possa ser instituída por uma revolução. Ela vai ser instituída somente quando houver mais e mais pessoas que não exigem a proteção do poder público [...]. Só poderá haver uma revolução permanente se esta for uma revolução moral: a regeneração do homem interior."
Ensaio A Anarquia (1900) Leon Tolstoi


Ainda sob influência do livro “A História das Idéias e Movimentos Anarquistas – Vol.1 A Idéia” de George Woodcock – livro que apresenta em ordem cronologia e com uma riqueza de detalhes históricos admirável a evolução da filosofia política anarquista, descrevendo uma breve 'biografia de idéias' dos principais teóricos desse movimento, finalizando o trabalho com a de Leon Tolstoi, com o capítulo intitulado “O profeta” – o qual li em novembro, acabei por continuar a saga dos anarquistas lendo, desta vez um romance: “A Morte de Ivan Ilitch” de próprio Leon Tolstoi. O livro foi publicado pela primeira vez em 1886 e é uma das obras-primas de sua ficção, escrito pouco depois de sua conversão religiosa ao cristianismo no final de 1870.

Esta foi a primeira obra completa que li de Tolstoi. Já tinha lido alguns contos e o admirava principalmente pelas obras adaptadas ao cinema, em especial uma obra baseada no conto “A Nota Falsa”, o filme “O Dinheiro” de Robert Bresson de 1983.

Vários aspectos me interessaram na obra e na pessoa do Leon Tolstoi. É sabido que ele é reconhecido com um dos maiores, se não o maior, romancistas que este mundo já viu. Duas de suas obras, o imenso painel-afresco histórico-social, sua maior obra, “Guerra e Paz” e o grande romance social e psicológico “Anna Kariênina”, são obras-primas da literatura universal, unanimemente apontadas como dois dos maiores romances de todos os tempos, e este “A Morte de Ivan Ilitch” é considerada por muitos a novela mais perfeita da literatura mundial. Entretanto não é este aspecto que mais me chamou a atenção, mas algo relacionado a sua personalidade: sua posição anarquista e cristã. Talvez até mesmo ele sentisse isso olhando criticamente sua vida, pois, embora extremamente bem-sucedido como escritor e famoso mundialmente, Tolstoi atormentava-se com questões sobre o sentido da vida e, após desistir de encontrar respostas na filosofia, na teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo da vida simples dos camponeses, a qual ele considerava ideal. A partir daí, teve início o período que ele chamou de sua "conversão".

Tolstoi converteu-se ao cristianismo, seguindo seus ensinamentos, mas os interpretando ao pé da letra, tornando seu cristianismo humanista, ao contrário da abordagem moderna, que conforme aprestada por Nietzsche em seu “O Anticristo” é niilista por essência. Essa visão cristã exacerbada aos moldes do cristianismo primitivo é que permite a aproximação entre duas filosofias tão antagônicas como cristianismo e anarquismo.

Vislumbra-se a possibilidade de um anarquismo em seu cristianismo logo na postura humanista adotada: o escritor possuía uma religiosidade sem os dogmas irracionais, que, para ele, serviam para dominar o povo, e eram, ou são, alguns dos conceitos mais caros à Igreja, convergindo com as idéias de Nietzsche. Considerava e seguia a doutrina de Jesus, mas achava impossível, por exemplo, que Jesus pudesse ser um homem e um Deus, ao mesmo tempo. Para Tolstoi, Deus estava nas próprias pessoas e em suas ações.

Em suas atitudes e seus escritos após sua conversão vê-se o anarquismo de forma mais clara: tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês, convenceu-se de que ninguém deve depender do trabalho alheio e passou a limpar seus aposentos, lavrar o campo e produzir as próprias roupas e botas e, por fim, decidiu abrir mão de receber os direitos autorais dos livros que viria a escrever.
Porém, não conseguia alcançar a simplicidade em que acreditava, isso talvez pela culpa de ter sido um rico membro da nobreza russa, chegando a acreditar que era indigno da riqueza herdada.

Mas é em sua morte que vemos personificado seu mais profundo anarquismo e o quanto este fazia parte de sua doutrina cristã: sua família, especialmente a mulher Sônia, cobrava-lhe os luxos e riquezas aos quais estavam acostumados. Os filhos davam razão a mãe, a quem Tolstói amava e que ameaçava se matar quando o escritor fazia menção de abandonar a casa. Aos 82 anos de idade, Tolstoi decide, enfim, fugir de casa e abandona a família para largar aquela vida na qual ele não mais acreditava. Durante alguns dias a fuga foi um sucesso, porém, devido a sua preferência em viajar em vagões de terceira classe, onde havia frio e fumaça, o já debilitado escritor contraiu uma pneumonia, que foi se agravando rapidamente. No dia 20 de novembro de 1910, o velho escritor morreu durante a fuga em uma estação de trem.

Esses últimos dias de sua vida lembram muito os de Ivan Ilitch, quando um homem procura um sentido para sua existência ao vislumbrar a morte iminente, repudiando o ambiente em que viveu e estabeleceu-se, o qual acreditava, até então, ser o mais correto e feliz.

Sobre o livro:
“A Morte de Ivan Ilitch”
Autor: Leon Tolstoi
Tradução: Vera Karam
Coleção L&PM Pocket, vol. 16
Ilustração da capa: Obra de Frederic Bazille, “Monet depois de seu acidente” (1866)
Preço médio: R$ 12,00

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Manifesto Contra a Democracia

Gostaria de abrir uma discussão a respeito de um dos tabus da sociedade atual, em especial da sociedade brasileira. Durante a última campanha eleitoral, vimos candidatos e até mesmo nosso presidente exaltar por diversas vezes nossa democracia. A frase “a democracia brasileira, uma das maiores do mundo” já se tornou um clichê de tão repetida, denotando algo indispensável em sociedades evoluídas. Mas lhes pergunto: o que é essa tal de democracia? Por que ela é tão necessária a nossa sobrevivência de tal forma a ter se tornado um dogma social, intocável e inquestionável?
A definição de democracia é a seguinte: um regime de governo em que o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos, ou seja, nas mãos do povo, direta ou indiretamente, por meio de representantes eleitos — forma mais usual. Nossa democracia, a brasileira, é essencialmente indireta, ou representativa, onde o povo expressa sua vontade através da eleição de representantes que tomam decisões em nome daqueles que os elegeram.
Apesar de não ser meu foco, quero também apresentar a definição de autocracia, a qual situa-se como a forma oposta de regime a democracia: é uma forma de governo na qual um único homem detém o poder supremo. Ele tem controle absoluto em todos os níveis de governo, sem o consentimento dos governados.

Mesmo que estas definições aparentemente mostrem que a democracia é a melhor escolha, vejo com certo temor essa “inquestionabilidade”, não só da democracia, mas de qualquer paradigma, seja social, cultural, científico ou de qualquer outra área do conhecimento que se possa imaginar.
A democracia é aceita como regime de governo em quase 100% dos países modernos, então por que isso estaria errado?
Em primeiro lugar entendo que a convicção é extremamente nociva a busca da verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche dizia que a convicção é mais inimiga da verdade que a própria mentira. Posso fazer uma releitura dessa frase imaginando que a partir do momento que alcançamos a perfeição, deixamos de evoluir, mas quem define a perfeição? Quem disse que a democracia é a perfeição?
Immanuel Kant via com ressalvas a democracia. Mesmo que pareça incoerente, ele considerava a democracia déspota como essência. Dizia que se a democracia é um sistema onde a maioria decide, a partir do momento que um membro dessa sociedade destoasse da massa, da maioria, este estaria sofrendo de despotismo, pois teria que aceitar calado a decisão escolhido por critério de maioria. A de se concordar que no fundo ele tem razão. Mas Kant, infelizmente, achava preferível um regime autocrata onde o governante tomasse decisões pensando no bem comum de todos os seus governados.
Apesar de não aceitar a autocracia como forma de regime moderna, entendo a crítica de Kant a democracia, pois a escolha da maioria não significa que será uma escolha racional, e isso pode ser entendido analisando sociedades como a brasileira, onde o povo vive alienado por políticas neo-liberais, mascaradas pelo populismo desenfreado de líderes que se fossem substituídos pela sua oposição não sentiríamos a mínima diferença. Nossa sociedade vive subjugada a ideologia aos moldas da definição de Marx. Portanto fica claro que “o direito, não está nos números, mas na razão, e a justiça não está na contagem de cabeças, mas na liberdade do coração dos homens.”

Se aceitarmos que o anarquismo é a evolução das filosofias políticas, entenderemos o porque da democracia ser nociva. Na democracia prega-se a soberania do povo, no anarquismo prega-se a soberania do individuo. Ele, o anarquismo, rejeita instituições parlamentares aos moldes das democráticas, pois entende que o indivíduo abdicou de sua soberania, delegando-a a um representante, e ao fazê-lo, permitiu que fosse tomadas decisões em seu nome, sobre as quais não tem nenhum controle. A partir dessa afirmação podemos começar a notar em nosso meio, certa insatisfação com a democracia, pois vemos inúmeras reclamações sobre nossos representantes eleitos, mas por que na verdade não fazemos uma análise, questionando a própria forma escolhida como regime e não quem escolhemos como nossos porta-vozes. Será que não devemos ser porta-vozes de nós mesmos?

Com este texto não quero incitar nenhuma revolução, pois acredito não estarmos preparados para tanto e esse tipo de atitude a meu ver é ultrapassada, mas quero incitar o pensamento crítico, mesmo nos tabus mais concretos de nossa sociedade e vejo a democracia como tal.