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sábado, 2 de abril de 2011

Black Swan - O Belo E A Moral


Assistir, discutir e estudar cinema a muito tempo são coisas que me dão extremo prazer. Ultimamente venho falando muito sobre filosofia, devido a meus estudos e a importância que a meu ver este assunto demanda. Para esta postagem tentarei unir as duas discussões, mas com uma inclinação a minha paixão supracitada, o cinema. É importante lembrar que a estética, o belo, as artes, são temas recorrentes na filosofia, portanto de certo modo, para um discurso correto e com propriedade, fica difícil falar de artes em geral sem falar ao mesmo tempo de filosofia. Não pretendo abordar com profundidade um tema que persigo com entusiasmo, que diz respeito a que tipo de cinema – ou como o cineasta e teórico Robert Bresson prefere chamar, cinematógrafo – é arte e não apenas uma representação comercial – o teatro fotografado de Bresson. Tratarei de uma nuance menos complexa, mas em contrapartida não menos importante.
Para isso tomemos o filme, diga-se de passagem, com grande apelo comercial, Cisne Negro (Black Swan) 2010 do ótimo cineasta America Darren Aronofsky, um dos melhores de sua geração. Este filme é exemplo de direção competente, uma verdadeira aula. Belíssimo em toda sua técnica e inovador em sua forma, mesmo se tratando de uma espécie de exacerbação do teatro fotografado de Bresson. Exatamente por assim o ser, exagerar – neste caso o exagero é bem vindo – em sua estética, é que a obra se torna tão única e provocadora.
Por outro lado a discussão e a controvérsia gerada por sua temática, seu roteiro, é digna de nota. Falo sobre a forma que foi apresentado ao público o trabalho dos bailarinos de primeira grandeza, talvez – não posso entrar no mérito da causa por puro desconhecimento – exagerando, desta vez, a dificuldade, o martírio e o pressão exercida sobre estes profissionais. Ouvi e ainda ouço inúmeros formadores de opinião e/ou repetidores delas, vistos em meu dia-a-dia ,contestando a forma que a arte da dança foi mostrada, forma que para estes distorce a realidade, portanto celebrando uma mentira.
Infelizmente meus caros, sinto dizer-lhes, estão todos equivocados . Parafraseando Schopenhauer, “os amantes e os românticos podem contestar minhas teorias, mas as suas criticas não procedem”. Neste caso o que não procede é o triste discurso do moralista de plantão – assim mesmo, com a utilização deste clichê. Até entendo as implicações éticas que qualquer obra artística deve considerar, mas no caso de Black Swan, não posso deixar de enaltecer o filme em prol de uma mera picuinha vinda de ignorantes, no que diz respeito a cultura cinematográfica. Essa briga é mais uma prova da necessidade de todas as pessoas em uma sociedade que se diga evoluída, democrática e participativa, obterem máximo de informação cultural, possível nas mais diversas áreas do conhecimento. Somente assim uma disputa retórica poderá ser nivelada e evoluir para um consenso. Se não for desta forma, ficaremos fadados ao mero discurso ideológico.
No caso do filme em questão é necessário dizer que sua representatividade como uma espécie de mini-vanguarda cinematográfica torna-se muito mais relevante que a controvérsia gerada por ele. Além disso, se não fosse por seu roteiro, em inteira concordância com a estética utilizada, a obra não seria tão grande, coesa e perfeita. Por fim, meu pedido, meu desejo, é que tornemo-nos mais sábios e isso implica não somente na obtenção do conhecimento, mas também na idéia lógica de que somente devemos utilizarmos o principio de contestação, de crítica, na medida que tenhamos plena ciência do que falamos, que estejamos convictos de nossa possibilidade de defesa. A possibilidade de defesa não quer dizer que vencermos o discurso previamente, mas que compreendemos o problema por completo, não somente no que diz respeito a nossa posição. Assim avançaremos em uma discussão onde certamente a verdade e o consenso surgiram.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Tempos Modernos


Existe um grande movimento, encabeçado por nossa presidente da república, em favor da educação no país. No seu primeiro pronunciamento em rede nacional após a posse, a substituta de “nosso salvador” elegeu exatamente essa temática para discutir, apresentando suas propostas, e claro, sem esquecer-se de mencionar sua legítima luta contra a miséria.

Com seu plano, o qual foca em escolas técnicas, com abertura de novas instituições e financiamento de estudo ao molde das bolsas do ProUni, vê-se claramente uma retomada da já ultrapassada educação tecnicista, a qual vigorou no Brasil em especial nas décadas da ditadura.
Há diversas explicações, diga-se de passagem, muito claras, a respeito dessa preocupação, tais como, a extrema necessidade de mão-de-obra por parte do mercado de trabalho nacional; as centenas de milhares (milhões) de cidadãos disponíveis para ingressarem neste mercado, com o intuito de obterem rendimentos maiores, mas que antes precisam qualificar-se; a degradação, apontada há anos, em nossas escolas públicas; e por conseqüência disso, o desnível entre estudantes formados em escolas públicas e escolas privadas. Poderíamos continuar a lista, mas nos limitaremos as estes fatores.

Torna-se claro que se estes planos funcionarem, o ganho econômico e social será de grande valia à nossa população, ou seja, a medida que desenvolvo a educação de grande parte de uma nação, estarei atendendo as demandas do mercado de trabalho, e atendendo meu próprio povo. Resultado: desenvolvimento econômico; ganho no PIB; aumento do nível de renda; aumento do grau de escolaridade média; possível erradicação, muito bem vinda e tão almejada, da miséria; entre outros desdobramentos decorrentes destes.

Sem querer ser pessimista, mas atentando para as possibilidades, sabemos que este crescimento, ou melhor, desenvolvimento das infra-instruturas de nosso país, o qual é bastante necessário, não vai durar para sempre. Desta forma, o consumismo pregado em nossa sociedade, que só tende a crescer com o ganho educacional e de capital, não sustentará nossa economia. Digo isso observando as causas da ultima grande crise mundial, mas como mera especulação. Possivelmente este tema será objeto de uma postagem neste blog daqui há alguns anos.
Mantendo a perspectiva que alguns chamarão de pessimista, é importante lembrar que numa economia capitalista o preço é regulado pela oferta e demanda, portanto é provável que profissões que hoje pagam bem devido a falta de profissionais, daqui a alguns anos com o aumento da oferta destes no mercado de trabalho, o valor do salário tenda a cair.

Por fim cheguei a meu dilema: citando o romancista, dramaturgo e talvez mais importante filósofo do século XX, Jean-Paul Sartre "me posiciono do lado daqueles que querem mudar tanto a condição social do homem quanto a concepção que ele tem de si mesmo”(1946). O quero dizer com isso? Utilizando o ideário pedagógico dialético do pensador brasileiro Demerval Saviani (1986) gostaria de demonstrar que a escola não é lugar de criação de meras máquinas para o mercado de trabalho. A educação que deveria ser o instrumento para as escolhas do homem livre, democrático, cidadão e autônomo acaba, então se tornando mais uma ferramenta de manipulação e de minimização do pensamento crítico na sociedade. Ela legitima as diferenças sociais e marginaliza, ao invés de tencionar a luta contra a ideologia das classes dominantes, e dos direitos dos seres humanos: o conhecimento, que deve ser universal e possibilitado a todos.

Com essa análise, a crítica à escola tecnicista me parece simples e viável, pois conforme nosso teórico, o que devemos visar na relação entre a educação e a sociedade é a responsabilidade dos professores em transformar, não o mundo, mas sim cada indivíduo que assiste sua aula,  ajudando-o a compreender melhor os acontecimentos como um todo, assim como seu papel dentro do sistema, seus deveres e seus direitos. Somente desta forma é que construiremos o já anunciado, e a meu ver de modo equivocado, “país melhor”.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Entre os Muros da Escola

Apresento um texto retirado do livro “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire, publicado pela primeira vez em 1996, um ano antes de sua morte. O educador e filósofo brasileiro tinha então 75 anos e discursava sobre a necessidade do professor e do aluno assumirem-se como seres sociais e históricos. Assumir-se como sujeito porque capaz de reconhecer-se como objeto. Neste breve trecho autobiográfico ele tentava demonstrar os méritos desta prática.

“Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por si mesmo. Nunca me esqueço, na história já longa de minha memória, de um desses gestos de professor que tive na adolescência remota. Gesto cuja significância mais profunda talvez tenha passado despercebida por ele, o professor, e que teve importante influência sobre mim. Estava sendo, então, um adolescente inseguro, vendo-me como um corpo anguloso e feio, percebendo-me menos capaz do que os outros, fortemente incerto de minhas possibilidades. Era muito mais mal-humorado que apaziguado com a vida. Facilmente me eriçava. Qualquer consideração feita por um colega rico da classe já me parecia o chamamento à atenção de minhas fragilidades, de minha insegurança.
O professor trouxera de casa os nossos trabalhos escolares e, chamando-nos um a um, devolvia-os com o seu ajuizamento. Em certo momento me chama e, olhando ou re-olhando o meu texto, sem dizer palavra, balança a cabeça numa demonstração de respeito e de consideração. O gesto do professor valeu mais do que a própria nota dez que atribuiu à minha redação. O gesto do professor me trazia uma confiança ainda obviamente desconfiada de que era possível trabalhar e produzir. De que era possível confiar em mim mas que seria tão errado confiar além dos limites quanto errado estava sendo não confiar. A melhor prova da importância daquele gesto é que dele falo como se tivesse sido testemunhado hoje. E faz, na verdade, muito tempo que ele ocorreu...”

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2010.


 Termino com a indicação do filme "Entre os muros da escola" (foto) 2008 Entre Les Murs de Laurent Cantet. Vencedor da Palma de Ouro de melhor filme é uma verdadeira obra-prima que tem sua temática totalmente voltada para a relação que Paulo Freire expos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os Velhinhos contra Nolan, Anderson e Aronofsky

Mais um texto sobre cinema. Segue algo que escrevi dias atrás, quando passou na televisão paga 4 filmes do Clint Eastwood no mesmo dia.

Sou um grande admirador do Clint Eastwood, a meu ver o um dos ótimos cineastas americanos da última década.
Analisando alguns dos cineastas americanos mais em evidencia, os Pop’s: Christopher Nolan, PT Anderson, Aronofsky e Woody Allen, podemos comparar o número de filmes realizados por estes nos últimos 10 anos.
Clint: 11 filmes; Nolan: 6; Anderson: 4; Aronofsky: 4; Allen: 13.
Impressionante como os velhinhos, Clint de 80 anos e Allen com 75, estão muito mais na ativa e isso comparando com grandes realizadores contemporâneos nos EUA.
Para Clint pesa, mais um Oscar com “Menina de Ouro” e outros excelentes filmes, como “Sobre Meninos e Lobos”, “Cartas de Iwo Jima”, “Gran Torino” e “Invictos”.
Para Allen pesa seu grande número de trabalhos e alguns bons filmes, como “Match Point”, o último “Tudo pode dar certo” e um ótimo “Vicky Cristina Barcelona”, sua última obra-prima.
Os demais cineastas, tristemente, praticamente não erram, mas pouco tentam. Ficamos então, anos a espera de seus lançamentos.
Gostaria, portanto de fazer uma comparação com mestre Ingmar Bergman que passou 30 anos de sua carreira fazendo em média 1 filme por ano.


sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite e Orkut

A produção cinematográfica brasileira, como na maior parte do mundo, é a priori autoral. Exclui-se deste tipo de produção especialmente os filmes executados em Hollywood. Nosso cinema, pelas necessidades da indústria, poderia ser aos moldes da Nouvelle Vague, e já foi bem parecido com este movimento, a citar com o Cinema Novo e talvez até mais ainda com o Cinema Marginal. Hoje em dia o diretor ainda tem sua importância elevada, mas os acordos de divulgação, investidores e produtores, entre outros fatores, afetam de forma significativa o resultado final de um trabalho. Gostaria de citar um realizador, termo preferido por Bresson, que ainda promove, apesar dos contras, um cinema razoavelmente autoral no Brasil: José Padilha. Ele como uma das mais importantes figuras de nosso cinema, têm 3 excelentes  trabalhos na conta, “Ônibus 174”, documentário de 2002, “Tropa de Elite”, filme de 2007 que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano seguinte e o recém lançado “Tropa de Elite 2”. Exatamente no dia do lançamento do Tropa 2, fui assisti-lo no cinema, no meio de toda aquela bagunça dos dias de lançamentos mais esperados no Brasil: gritos, gargalhadas sem por que, aplausos para tiros e socos, e comentários desnecessários. Mas, apesar disso pude apreciar o filme de forma aceitável. Ao chegar em casa, como de costume, acesso a rede do Orkut e entro na “comunidade” do filme e para minha surpresa esta já estava com mais de 14 mil membros, mas tudo bem, pois ela foi criada no mês de julho. Para conferir busquei a comunidade do Tropa de Elite, o primeiro, e vejo que esta possui mais de 360 mil membros. Neste ponto voltamos a questão do cinema autoral. Sabendo que estes filmes são realizados por um verdadeiro cineasta autoral, fui atrás da comunidade do realizador. Esta possuía 266 membros. Fazendo relação matemática cheguei a conclusão que cerca de 0,08% do público se preocupa com o autor do filme, e isso falando de um homem que é responsável, pelo roteiro, argumento, produção e direção de seus trabalhos. É claro está conclusão é obra de mero empirismo e positivista. E os dados utilizados são muito fracos. Mas mesmo assim não deixa de ser interessante a forma como a maioria das pessoas analisa, ou deixa de analisar, um trabalho feito com tanto esforço por parte de seus realizadores.