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segunda-feira, 9 de julho de 2012

FOUCAULT, O FILOSOFO DA CONCRETUDE

Vinicius Nesi
Prof.° Dr. Selvino J. Assmann
UFSC – Universisade Federal de Santa Catarina
Filosofia – Filosofia Política II
10/07/2012


RESUMO: O presente trabalho visa estabelecer relações entre a abordagem filosófica do filosofo francês Michel Foucault e o filosofo alemão Martin Heidegger, a partir dos seguintes trabalhos: O Sujeito e o Poder (Foucault); Totalitarismo ou biopolitica do filosofo italiano Roberto Esposito; e O Abuso de Obediência do filosofo francês Fréderic Gros. O objetivo desta relação é caracterizar Foucault como um filosofo da concretude em oposição a abordagens filosóficas abstratas que tratariam erroneamente o homem como mero objeto.

Palavras-chaves: Foucault, Heidegger, concretude, racionalização, discursos de verdade.

1.                  INTRODUÇÃO

As relações entre filósofos sempre são difíceis de estabelecer e defender. Na verdade, o intuito do trabalho que se segue é muito menos de apontar similaridades pontuais entre dois filósofos tão distintos e que abordaram assuntos tão diversos, do que apresentar a importância de um estudo filosófico mais completo que tornar-nos-á interpretes mais competentes de nosso tempo. A partir de filósofos que são contemporâneos a nós, como Esposito e Gros, tentaria mostrar a validade do espírito heideggeriano na abordagem filosófica de Foucault. No entanto, não pretendo que o apelo para essas relações seja suprido por aqui, ao contrário, como esse trabalho é apenas fruto de uma intuição que ainda a de ser muito mais explorada futuramente, pretendo que o leitor o utilize muito mais como inspiração para futuras leituras, do que tome minhas impressões como verdades consumadas, que poderiam limitar sua análise.
           
2.                  Foucault, o filosofo da concretude

A questão levantada logo de início no texto O Sujeito e o Poder de Michel Foucault, contrariamente ao que normalmente poderíamos esperar deste autor, que sempre foi caracterizado pelo seu estudo do poder, é que seu trabalho não se concentrou, numa primeira abordagem, em analisar os fenômenos do poder, mas sim, em estudar como se dá a transformação de seres humanos em sujeitos (FOUCAULT, 1995, p.231). O termo ‘sujeito’ aqui pode ser mal interpretado, pois é comum ligarmos a noção de sujeito com alguém que está em oposição ao objeto. Não é o caso. Foucault trabalha com uma noção não muito usual, mas que aparentemente é mais apropriada ao termo, visto que, sujeito aqui é aquele que é sujeitado. O filosofo trata então da objetivação do sujeito, ou seja, o fato de tornarmos os seres humanos meros objetos de pesquisa. Aqui já implicaria uma caracterização inicial de uma certa abordagem de biopoder – o termo escolhido é as vezes tratado por Foucault como sinônimo de biopolítica, mas em geral diz respeito a qualquer exercício do poder que reduz a política a vida biológica –, visto que, a meu ver o fato de se tratar o homem como mero objeto de pesquisa, já o caracteriza como um ser apenas abstrato, isto é, um ser que não é nada além daquilo que representa enquanto objeto de uma investigação. Claro que irão dizer que apenas tornar seres humanos em sujeitos não caracteriza nada de biopoder, pois a mera investigação objetiva não é capaz de produzir medidas políticas que tratem o homem como mero ser biológico. No entanto, a meu ver, esse tratamento do tipo sujeito/objeto – no caso aqui o objeto é o próprio homem –, que se deu principalmente a partir da modernidade, e nisso espero que Foucault concorde comigo, já traz encoberto certa postura que faz com que homens tratem outros homens apenas como objeto, nunca como um igual. E é isso que quero afirmar aqui: a objetivação do sujeito é uma medida que pelo menos antecipa uma atitude de biopoder.
Gostaria de fazer aqui duas observações iniciais sobre dois filósofos distintos: a primeira a respeito de um pensador que me é muito caro: Heidegger; e a segunda é para enfatizar uma oposição a ele, enquanto representante de uma certa escola filosófica: via Esposito. Heidegger tem em sua abordagem hermenêutica uma repulsa aos termos sujeito e objeto. Para ele, nenhuma pesquisa poderia se inclinar para tal perspectiva, visto que seu existencial fundamental, o Ser-aí – o nosso ser, o ser do homem, o ser enquanto “abertura” –, é antes de tudo um ser-no-mundo, ou seja, somos, numa abordagem existencialista, primeiramente uma totalidade de remissões, em vista de um já sido, com inclinação para um por vir que se dá na abertura, com limitações, pois o limite é constituinte fundamente de nosso ser (HEIDEGGER, 2009, p.193-199). Essa condição não nos deixa capaz de caracterizar o homem como um sujeito em oposição a um objeto, pois trata dos entes do mundo (coisas) sob duas novas perspectivas: “à mão” e “diante da mão”. O “diante da mão” é o que mais se aproxima do termo ‘objeto’, pois é aquela perspectiva que temos das coisas somente quando as vemos fora de nossa mundanidade. Heidegger usa o exemplo do martelo para demonstrar seu “diante da mão”: o martelo é um “para-quê”, e ele só se apresenta a nós quando se quebra, pois não nos damos conta dele enquanto estamos a usá-lo. E é esse uso que é o “à mão” de Heidegger. Para esse autor existe um modo mais originário de tratar os entes, que é tratá-los enquanto utensílios, em sua manualidade. Esse tratamento é anterior até mesmo a proposição, mas nem por isso deixa de ser o mais importante a ser trabalhado (HEIDEGGER, 2009, p.202-209). A questão, a partir de Heidegger, que quero propor, e aqui acredito que mais uma vez Foucault concordaria comigo, é a seguinte: o homem não pode ser nem tratado como um ente “à mão” e muito menos “diante da mão” (objeto), isso se se quiser fazer um estudo com mais propriedade dele. Seria até contraditório fazer isso, pois somos apenas o existencial fundamental (ser-ai), ou seja, não somos nada além disso, de um ser-no-mundo, isto é, nossa existência não está fundado em “para-quês”, como um utensílio; na verdade a conclusão de Heidegger é que ela não está fundada em nada.
Como havia a antecipado, a oposição a Heidegger se dará via Esposito, que em seu texto Totalitarismo ou biopolitica usa Heidegger como um dos expoentes de uma abordagem filosófica que caracteriza a história enquanto filosofia da história, em oposição aqueles que trataram, mais recentemente, de abordar a história como sendo história das filosofias (ESPOSITO, 2008-2009), e aqui incluo, por minha conta, Foucault como um dos expoentes. O que Esposito explicita aqui, é que Heidegger é um dos que tenta adaptar as mudanças históricas de tal modo que se enquadrem a seu construto teórico-filosofico (ESPOSITO, 2008-2009). Mesmo com o desejo de ficar a parte de uma discussão se Heidegger é ou não é um desses filósofos da abstração, quero atentar para o fato de que ele, ao contrário, sempre afirmou a concretude e se construtos teóricos tem alguma validade para este alemão é apenas enquanto teoria, nunca como uma representação da realidade. A margem de opiniões um tanto quanto parciais, quero ressaltar a validade de Esposito, no que diz respeito a sua interpretação dessa oposição, pois para ele os conflitos modernos se dão em vista de um choque de correntes filosóficas que querem se afirmar como superiores umas as outras; e nisso não posso discordar. Além disso, filósofos como Foucault não se perguntam mais sobre as origens dos fenômenos, tal como fez Hannah Arendt, mas sim, os vêem entrelaçados por diversos fatores, dos quais não somos mais capazes de desatar os nós para podermos visualizamos as origens e a sequência da história tal como ela se deu de fato (ESPOSITO, 2008-2009). Esse ‘de fato’ já é em si uma abstração, pois somos sempre interpretes de nosso tempo, lemos a história com critério, mas de tal modo que ele faça sentido para nós no nosso tempo e no nosso mundo. Essa atitude é antes de tudo hermenêutica, pois afirma a inter-relação e a inter-determinação, afirma também o diálogo, e é só em vista dessa concretude, nunca da abstração sujeito/objeto, que podemos entender os fenômenos que falam do homem, com mais propriedade. Aqui vemos que há uma leve retomada de Heidegger, pois mesmo ele, nunca tratou as coisas de dizem respeito a ação humana como mero objeto.
Mais uma vez gostaria de tocar no nome de Heidegger para tentar elucidar uma questão de Foucault. Na verdade a questão foi levantada por Gros, em seu texto em homenagem ao aniversário de 20 anos da morte de Foucault: O abuso da obediência. Heidegger ao tratar o homem antes de tudo como ser-ai, nos fornece a seguinte premissa: se somos apenas esse existencial fundamental e nada justifica nossa existência logo de saída, então não temos pressupostos essencialistas que sustentem ou que tentem afirmar modos de ser e de agir. O que isso quer dizer: não temos necessariamente de obedecer pretensos discursos de verdade, pois nada é verdadeiro a priori, a verdade só se dá no fato. E mais ainda, discursos que comumente são ouvidos, tais os de religião, ou mesmo de filosofia essencialista, nada tem a nos dizer que de fato precisamos ouvir. Gros ressalta que foram a partir desses discursos de verdade, ou melhor, de nossa vocação (aqui vocação não como uma essência do ser, mas como uma certa atitude conformista e até mesmo fatalista) para a aceitação da tais discursos que tornamo-nos seres que obedecem sem o menor pudor; e isso a meu ver é vergonhoso, dado a premissa heideggeriana. Além disso, é nessa atitude abusiva, tanto dos que mandam, quanto dos que obedecem, que são criados construtos que visão inventar a história do próprio homem (GROS, 2004), e também construtos que tornam os seres humanos sujeitos, ou seja, objetivam sujeitos.
Agora posso retomar o texto Sujeito e Poder; o intuito aqui é afirmar neste texto as perspectivas levantadas acima sobre a filosofia de Foucault, e não fazer uma resenha deste texto. Foucault mostra como são feitas tais objetivações: a partir de uma visão cientificista; em vista de “práticas divisórias” do sujeito – por exemplo: doente e sadio, louco e são, etc –; e por último, a abordagem do sujeito de sexualidade (FOUCAULT, 1995, p.232). A questão é que todas essas formas de objetivação são em última instância racionalizações de nossa existência, ou seja, são abstrações de nosso ser, ou melhor, refletem pretensos discursos de verdade. Importante apontar sobre o estudo de Foucault realizado nos últimos anos, a saber, A História da Sexualidade, que mesmo este trata da sujeição do homem a discursos sobre sexo, pois só a partir destes discursos que se pode falar em sexualidade. Sexo sem discurso não é sexualidade. Desejo lembrar aqui que os discursos sobre sexo são, em geral, na nossa sociedade contemporânea, voltados para o biopoder, e até mesmo para biopolítica, pois falam de como devemos nos comportar diante de sexo, como por exemplo, no uso de preservativos. É, portanto ressaltando essa atitude de objetivação que Foucault tomou a questão do poder. O problema aqui é o seguinte: as formas de objetivação do sujeito são estudas a partir de instrumentos específicos, mas para o poder não há instrumentos; para o poder é necessário, segundo Foucault, e a meu ver com acerto, apelar à concretude, ao contrário da abordagem racionalista típica dos que objetivam o sujeito, ou seja, o autor quer perguntar o que legitima o poder e como ele se dá como instituição em nossa sociedade, ou seja, quer saber o que é o Estado (FOUCAULT, 1995, p.232). Mais uma vez vejo relação entre Foucault e Heidegger, visto que o apelo aqui não é a fundamentação teórica num sentido formalista, mas uma visão hermenêutica que trata das coisas do mundo concreto. O sentido hermenêutico é explicitado no texto de Foucault quando ele lembra a necessidade de tomarmos consciência histórica para a conceituação (FOUCAULT, 1995, p.232), pois conceituar algo não é mera abstração a partir de um plano imutável e perene; toda hermenêutica visa um dialogo com o passado no sentido de realizar uma fusão de horizontes, essa fusão é sempre uma aplicação no campo concreto a partir da interpretação, com a apreensão do passado em vista do presente. Além disso, Foucault lembra que toda questão do poder é antes de tudo uma experiência concreta, uma experiência do homem, ou seja, não é uma questão de caráter meramente teórico.
Por fim, algo que desejo ressaltar é a definição do papel da filosofia para Foucault, em vista de analisar o problema da razão. O autor afirma que a filosofia deve vigiar os excessivos poderes da racionalidade política. Pois bem, ao estudarmos o poder devemos lembrar-nos da sua estrita relação com a racionalização. Foucault acertadamente, e afirmando as questões levantadas acima, apresenta a razão como não sendo objeto de culpa ou inocência (FOUCAULT, 1995, p.233). As razões para essa decisão são obvias, pois somos antes de tudo seres dotados de razão – razão aqui não é a capacidade de discernir, mas apenas nossa condição cognitiva (e nisso Heidegger concordaria) –, e além disso, não queremos cair no binômio, racionalista e irracionalista (FOUCAULT, 1995, p.233) – essa abordagem em si implica uma abstração que não queremos tomar. Para Foucault a filosofia já trilhou essa caminho errado antes, como por exemplo ao analisar o Iluminismo enquanto origem de fenômenos totalitários contemporâneos, como fez a escola de Frankfurt; no entanto, no entanto o filosofo não desmerece estes trabalhos (FOUCAULT, 1995, p.233), ao modo heideggeriano de tomá-los como meros construtos teóricos. Aqui atentar para a relação desta perspectiva frankfurtiana com a já supracitada oposição levanta por Esposito: esses filósofos concentram-se em descobrir as origens de seus problemas. Foucault, ao contrário, dado sua abordagem concreta, nunca tomaria a racionalização como um todo, mas sempre a partir de experiências concretas fundamentais, por exemplo: loucura, morte, crime, etc (FOUCAULT, 1995, p.233). Ou mesmo, mantendo-se fiel as suas tendências já levantadas, estudar o poder a partir de fenômenos de resistência (FOUCAULT, 1995, p.234). O importante aqui, e é isso que venho ressaltar, é que a abordagem foucaultiana antes tudo visa construir projetos hermenêuticos que se relacionam concretamente, com a realidade de nosso tempo, e nunca a partir de uma abstração que nada tenha a ver com nosso mundo.

3.                  CONCLUSÃO

Acredito que na medida do possível, dado a limitação física do texto, consegui ressaltar relações entre a abordagem filosófica de Foucault e a abordagem filosófica de Heidegger. A questão, como apresentado na introdução, não foi apenas destacar pontos em comum entre os dois, mas antes de tudo, mostrar que apreensão das similaridades a partir da explicitação dos traços fundamentais de cada um, tornar-nos-á capazes de desenvolver um estudo sistemático da filosofia de forma mais completa, e assim compreenderemos melhor o tempo de cada filosofo em específico e por fim nosso próprio tempo. Em relação ao texto, o importante para mim foi ressaltar que a abordagem foucaultiana, antes tudo, visa construir estudos hermenêuticos que se relacionam concretamente com o mundo, com a realidade de nosso tempo, e nunca a partir de uma abstração que nada tenha a ver com o lugar e o tempo em que vivemos.

4.                  referencias bibliográficas

GROS, Fréderic. L’abus d’obéissance. Em: Libération, 19 e 20 de junho de 2004. Paris, Caderno intitulado Le feu Foucault, p. XI. Trad. Portuguesa Selvino J. Assmann.

FOUCAULT, Michel. O Sujeito e o Poder. Rio de Janeiro: Forense Universitário, 1995.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

ESPOSITO, Roberto. Totalitarismo o Biopolitica: Per un’interpretazione filosofica Del Novecento In: Termini Del política. Comunità, immunità, biopolitica. Milano-Udine, Mimesis Edizioni, 2008-2009, p.171-81. Trad. Portuguesa de Selvino J. Assmann.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Pseudo-Sexualismo

Poderão dizer que o tema objeto de meu texto de hoje seja polêmico, mas acredito que não é mais polêmico do que muitos outros já tratados neste blog; no entanto admito que sobre este tema, não tenho tanto conhecimento quanto os demais. Com isso não quero dizer que eu seja um especialista em todos os outros assuntos tratados aqui, muito pelo contrário; o que proponho e sempre propus, mesmo que não abertamente até agora, é seguir uma tradição de textos livres, de opinião e intuição, sem deixar de serem filosóficos, por mais que tenham baixa propriedade técnica, a qual sigo com grande admiração – mas, é claro, lembrando a ressalva válida a qualidade literária – a Bertrand Russell. Prometo que em postagens posteriores trarei de explicar melhor esta tradição, da qual, livremente e de forma abusada tento fazer parte.

Quero mais uma vez reforçar minha incapacidade de referenciar tecnicamente o texto a seguir, portanto buscarei ser mais sucinto e direto que outros já escritos.
Pois bem.
“O que tratarei é da sexualidade. Ou será da opção sexual? Não sei.”
Usei esta frase de introdução para mostrar minha ignorância, no entanto pretendo acabar sendo claro em minha opinião. E minha opinião é a seguinte: parece-me que a questão de opção sexual, ou melhor, a necessidade de escolhermos uma opção entre tantas, é algo ridículo e não aplicável a vida saudável. Para ser mais claro: heterossexualismo, homossexualismo, bissexualismo, transexualismo, e tantas outras opções (serão mesmo opções?) mais obscuras, mas não menos relevantes, para mim apresentam-se como brutalidades a nossa liberdade sexual e frutos de uma tradição discriminatória que mesmo com movimentos modernos de tolerância acabam mantendo-se em voga.

O objeto aqui é: porque simplesmente não tratamos nossas diferenças (ou serão igualdades?), mesmo que ocultas, apenas por sexualidade? Quero dizer que o ser humano não é levado de modo inato a definição por uma das formas supracitadas. Bem como, numa visão existencialista, torna-se muito mais claro a não necessidade de taxação aos moldes atuais.
Minha opinião é a de que sejamos todos “sexuáveis”, não limitando-nos a clichês e padrões pré-estabelecidos. Acredito que quanto mais livres tornemo-nos, mais feliz seremos neste pequeno, mas importante fator de nossas vidas, a chamada vida sexual.

Cristãos e outros religiosos me tratarão com repulsa, bem como alguns cientistas dogmáticos, mas parece-me claro que enquanto ainda entenda que nossa vida é formada por nós mesmo e o que é inato limita-se em especial ao físico, não ao psíquico, a formação de nossas experiências deve estar aberta, sempre é claro, com a devida responsabilidade para conosco e com o engajamento proposta à humanidade. Portanto discursos tradicionalistas e limitadores embasados em crenças não comprovadas, ou ao menos com justificativas fracas, como no caso da ciência dogmática, devem ser deixados de lado, em prol de nós mesmos e de uma provável e possível feliz mudança sócio-comportamental.

sábado, 2 de abril de 2011

Black Swan - O Belo E A Moral


Assistir, discutir e estudar cinema a muito tempo são coisas que me dão extremo prazer. Ultimamente venho falando muito sobre filosofia, devido a meus estudos e a importância que a meu ver este assunto demanda. Para esta postagem tentarei unir as duas discussões, mas com uma inclinação a minha paixão supracitada, o cinema. É importante lembrar que a estética, o belo, as artes, são temas recorrentes na filosofia, portanto de certo modo, para um discurso correto e com propriedade, fica difícil falar de artes em geral sem falar ao mesmo tempo de filosofia. Não pretendo abordar com profundidade um tema que persigo com entusiasmo, que diz respeito a que tipo de cinema – ou como o cineasta e teórico Robert Bresson prefere chamar, cinematógrafo – é arte e não apenas uma representação comercial – o teatro fotografado de Bresson. Tratarei de uma nuance menos complexa, mas em contrapartida não menos importante.
Para isso tomemos o filme, diga-se de passagem, com grande apelo comercial, Cisne Negro (Black Swan) 2010 do ótimo cineasta America Darren Aronofsky, um dos melhores de sua geração. Este filme é exemplo de direção competente, uma verdadeira aula. Belíssimo em toda sua técnica e inovador em sua forma, mesmo se tratando de uma espécie de exacerbação do teatro fotografado de Bresson. Exatamente por assim o ser, exagerar – neste caso o exagero é bem vindo – em sua estética, é que a obra se torna tão única e provocadora.
Por outro lado a discussão e a controvérsia gerada por sua temática, seu roteiro, é digna de nota. Falo sobre a forma que foi apresentado ao público o trabalho dos bailarinos de primeira grandeza, talvez – não posso entrar no mérito da causa por puro desconhecimento – exagerando, desta vez, a dificuldade, o martírio e o pressão exercida sobre estes profissionais. Ouvi e ainda ouço inúmeros formadores de opinião e/ou repetidores delas, vistos em meu dia-a-dia ,contestando a forma que a arte da dança foi mostrada, forma que para estes distorce a realidade, portanto celebrando uma mentira.
Infelizmente meus caros, sinto dizer-lhes, estão todos equivocados . Parafraseando Schopenhauer, “os amantes e os românticos podem contestar minhas teorias, mas as suas criticas não procedem”. Neste caso o que não procede é o triste discurso do moralista de plantão – assim mesmo, com a utilização deste clichê. Até entendo as implicações éticas que qualquer obra artística deve considerar, mas no caso de Black Swan, não posso deixar de enaltecer o filme em prol de uma mera picuinha vinda de ignorantes, no que diz respeito a cultura cinematográfica. Essa briga é mais uma prova da necessidade de todas as pessoas em uma sociedade que se diga evoluída, democrática e participativa, obterem máximo de informação cultural, possível nas mais diversas áreas do conhecimento. Somente assim uma disputa retórica poderá ser nivelada e evoluir para um consenso. Se não for desta forma, ficaremos fadados ao mero discurso ideológico.
No caso do filme em questão é necessário dizer que sua representatividade como uma espécie de mini-vanguarda cinematográfica torna-se muito mais relevante que a controvérsia gerada por ele. Além disso, se não fosse por seu roteiro, em inteira concordância com a estética utilizada, a obra não seria tão grande, coesa e perfeita. Por fim, meu pedido, meu desejo, é que tornemo-nos mais sábios e isso implica não somente na obtenção do conhecimento, mas também na idéia lógica de que somente devemos utilizarmos o principio de contestação, de crítica, na medida que tenhamos plena ciência do que falamos, que estejamos convictos de nossa possibilidade de defesa. A possibilidade de defesa não quer dizer que vencermos o discurso previamente, mas que compreendemos o problema por completo, não somente no que diz respeito a nossa posição. Assim avançaremos em uma discussão onde certamente a verdade e o consenso surgiram.

sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite e Orkut

A produção cinematográfica brasileira, como na maior parte do mundo, é a priori autoral. Exclui-se deste tipo de produção especialmente os filmes executados em Hollywood. Nosso cinema, pelas necessidades da indústria, poderia ser aos moldes da Nouvelle Vague, e já foi bem parecido com este movimento, a citar com o Cinema Novo e talvez até mais ainda com o Cinema Marginal. Hoje em dia o diretor ainda tem sua importância elevada, mas os acordos de divulgação, investidores e produtores, entre outros fatores, afetam de forma significativa o resultado final de um trabalho. Gostaria de citar um realizador, termo preferido por Bresson, que ainda promove, apesar dos contras, um cinema razoavelmente autoral no Brasil: José Padilha. Ele como uma das mais importantes figuras de nosso cinema, têm 3 excelentes  trabalhos na conta, “Ônibus 174”, documentário de 2002, “Tropa de Elite”, filme de 2007 que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano seguinte e o recém lançado “Tropa de Elite 2”. Exatamente no dia do lançamento do Tropa 2, fui assisti-lo no cinema, no meio de toda aquela bagunça dos dias de lançamentos mais esperados no Brasil: gritos, gargalhadas sem por que, aplausos para tiros e socos, e comentários desnecessários. Mas, apesar disso pude apreciar o filme de forma aceitável. Ao chegar em casa, como de costume, acesso a rede do Orkut e entro na “comunidade” do filme e para minha surpresa esta já estava com mais de 14 mil membros, mas tudo bem, pois ela foi criada no mês de julho. Para conferir busquei a comunidade do Tropa de Elite, o primeiro, e vejo que esta possui mais de 360 mil membros. Neste ponto voltamos a questão do cinema autoral. Sabendo que estes filmes são realizados por um verdadeiro cineasta autoral, fui atrás da comunidade do realizador. Esta possuía 266 membros. Fazendo relação matemática cheguei a conclusão que cerca de 0,08% do público se preocupa com o autor do filme, e isso falando de um homem que é responsável, pelo roteiro, argumento, produção e direção de seus trabalhos. É claro está conclusão é obra de mero empirismo e positivista. E os dados utilizados são muito fracos. Mas mesmo assim não deixa de ser interessante a forma como a maioria das pessoas analisa, ou deixa de analisar, um trabalho feito com tanto esforço por parte de seus realizadores.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"O Segredo". Alguem lembra?

Venho colocar em discussão um fenômeno comercial de nem 5 anos atrás: "O segredo" franquia que passou de filme para livro e vai saber mais o que...
Observa-se que esta franquia já foi razoavelmente esquecida, o que é comum.
Ao contrário de franquias recentes como “Crepúsculo”, esta não foi alimentada em especial por jovens bitolados, mas, por todos os tipos de membros da sociedade, desde donas de casa até executivos de corporações, por exemplo.
E, no entanto, não foi por pura diversão ou influencias socionômicas que esta se estabeleceu, a meu ver, principalmente pelo desejo, seja ele movido pela ganância ou pela benevolência.
O ponto mais chocante para mim é o mecanismo (comportamento) difundido por este “segredo”.
Ele é completamente dogmático e motivo pela fé.“Santa” ignorância.
Confesso que na época de seu lançamento fiz questão de passar longe de qualquer conhecimento sobre este assunto, mas hoje ao ver em algum lugar o logotipo de “O segredo” fiquei intrigado; - pesquise sobre o que se tratava - como este estrondoso sucesso praticamente deixou de existir em minha mente? Será que ele ainda existe na mente das pessoas que o compraram? Será que algum dia ele existiu nessas mentes?
A resposta positiva ou negativa é irrelevante, se o dogma da fé permanece, mesmo que não seja praticado.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Primeiro post - Eleições 2010

Vou começar os posts no blog com um texto recortado do twitter @pensa_a_cabeca sobre as eleição de hoje (só para inaugurá-lo):


Hj é conveniente um comentário sobre as eleições, especialmente devido a expressiva votação alcançada p/ nosso grande inspirador Tiririca.
Vi alguns moralistas fazendo críticas a eleição deste p/ a câmara federal.
Concordo q a maioria dos votos recebidos p/ ele sejam p/ manifestar uma certa insatisfação do eleitorado.
Entendo desta forma até pela sugestiva frase utilizada na campanha:
“Vote no Tiririca, pior q não fica.” O que a meu ver deve ser verdade.
Agora, considerar um erro esse tipo de voto, é transferir a culpa.
Este fenômeno acontece por incompetência crônica dos políticos, corrupção, etc... causando uma provável desilusão no eleitor.
E talvez ocorra principalmente pela obrigação de votar.
Um dia houve um movimento chamado “Diretas Já”, talvez é hora de acontecer outro movimento: “Não obrigatoriedade para daqui a 2 anos”
E; parabéns pro Tiririca!!!

Bom, aí está o que foi postado no twitter. Com este texto gostaria de alimentar uma possível reflexão sobre a obrigatoriedade de votar, e o papel dos eleitores e políticos, eleitos ou não, nesta que é uma das grandes “festas” da chamada democracia brasileira.